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Carro elétrico 4: a indústria nacional tem vez?

Li, da Mobilis. Foto Ivor Braga

A eletrificação de carros transforma a indústria automotiva. E uma das grandes novidades foi o lançamento, este ano, do primeiro carro híbrido flex do mundo. Movido tanto pelos combustíveis etanol e gasolina, como por motor elétrico, o modelo Corolla, da Toyota, está sendo produzido na cidade de Indaiatuba, interior paulista.

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A nova planta industrial abriu 900 empregos diretos com investimentos de R$ 1,6 bilhões pela montadora. A previsão é que o modelo chegue ao mercado consumidor brasileiro em outubro. Já a partir do ano que vem devem iniciar as exportações para Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Peru e Colômbia. 

A tecnologia empregada prevê a geração da energia elétrica a partir do uso dos combustíveis. Com os motores híbridos o desempenho e a economia aumentam em relação aos modelos convencionais. De acordo com o analista de conservação do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, “por terem menos partes móveis e não sofrerem o desgaste causado pelo sistema de combustão, os carros elétricos geram cerca de 28% menos custos de manutenção.”  Os veículos elétricos também poluem menos, são mais silenciosos e tem melhor torque na partida.

Toyota Corolla Hibrido

O Corolla híbrido está sendo produzido na fábrica da Toyota, em Indaiatuba, interior paulista. Foto Divulgação.

As inovações na indústria são uma necessidade neste segmento. Os veículos elétricos precisam de estruturas com resistência química e ao calor, por exemplo, para aplicações moldadas e inserção de metal. O termoplástico é a resposta. Mais leve e com maior produtividade parece ter sido desenvolvido especialmente para os novos modelos. Até mesmo na construção civil há adaptações, como a instalação de pontos para recarga de carros e bicicletas elétricas em condomínios residenciais ou de uso comercial. Nesse caso, o projeto elétrico do empreendimento precisa prever nova potência elétrica, espaços físicos nos quadros de distribuição e tubulação de alimentação. Em média, o custo da instalação elétrica nas áreas comuns do edifício sobe 10%. 

 

Em fase de testes

Renault Itaipu Zero emissoes. Itaipu Veiculo Elétrico

Na segunda maior hidrelétrica do mundo, o veículo elétrico vai ganhando a dianteira. Ainda em 2017, a Itaipu Binacional começou a eletrificação da frota com a inclusão de vinte automóveis Renault Zoe de uma só vez. A frota atual tem aproximadamente 100 carros elétricos, de diferentes marcas, entre veículos emplacados e protótipos que são desenvolvidos dentro do programa de mobilidade elétrica.

Em dez anos os veículos elétricos de Itaipu rodaram 836 mil km e evitaram a emissão de 87 toneladas de CO2, o equivalente ao plantio de 498 árvores. A economia gerada pelo Programa Veículo Elétrico no Parque Tecnológico Itaipu (PTI) chega a R$ 240 mil – considerando que a própria empresa produz a energia que abastece os carros – com a energia sendo comprada a economia ficaria em R$ 110 mil. 

Atualmente, os pesquisadores estudam o desenvolvimento de nova geração de ônibus híbrido a etanol, sistemas de armazenamento de energia, em parceria com Exército Brasileiro, e uma nova bateria de sódio para aplicação veicular e estacionária. O Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Montagem de Veículos Elétricos tem mais de 3 mil metros quadrados de área e abriga laboratórios, oficinas, ferramentaria e showroom.

O Programa Veículo Elétrico tem mais de doze anos na empresa. Começou a ser desenvolvido em 2006, em parceria com a KWO – Kraftwerke Oberhasli AG, que controla usinas hidrelétricas na região dos Alpes, na Suíça. As pesquisas já resultaram até na criação de um avião elétrico. Carros montados na Itaipu são utilizados por empresas do setor elétrico e pela própria usina, e viabilizam testes de carga na rede elétrica.

Renault carro eletrico Itaipu Frota Aerea

A frota atual de veículos elétricos de Itaipu chega a aproximadamente 100 unidades, de diferentes marcas.

O desenvolvimento de novas soluções para viabilizar o veículo elétrico une empresas e universidades. Um exemplo vem da Nissan.

A parceria da montadora com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) buscas alternativas de uso futuro para as baterias descartadas.

Já com o Parque Tecnológico Itaipu (PTI) e o Instituto de Tecnologia Aplicada e Inovação (Itai) o foco é o desenvolvimento nacional de carregadores bidirecionais para veículos elétricos, permitindo que o próprio veículo elétrico compartilhe energia com a casa do consumidor, edifícios comerciais e a rede comercial.

Mais recentemente, a marca japonesa se uniu a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para pesquisar o uso do bioetanol como uma opção para a mobilidade elétrica.

Detalhe da tomada de recarga do Nissan Leaf.

Detalhe da tomada de recarga do Nissan Leaf.

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Em Curitiba também ocorrem pesquisas. Um dos estudos em andamento está sendo realizado pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), e avalia possibilidades de inserção do Estado na cadeia produtiva de veículos elétricos. A Renault cedeu uma plataforma do Twizy, veículo elétrico produzido pela montadora. Com a plataforma e os dados abertos do protótipo, os pesquisadores do Instituto podem criar projetos de novos modelos.

O diretor de Indústria e Inovação do Tecpar, Rafael Rodrigues, acredita que uma possibilidade é o Instituto desenvolver programas de certificações dos eletropostos e de baterias dos veículos.

Segundo a diretora de Inclusão e Mobilidade Sustentável da Renault, Silvia Barcik,  o Twizy nasceu dentro do conceito Plataforma Open Mind, quando todos os dados técnicos do veículo ficam disponíveis para que a sociedade possa mesmo estudar e criar soluções locais para a mobilidade.  

Renault Twizy

 

O Twizy é enquadrado como um como um quadriciclo e pode circular apenas em vias urbanas.  A capacidade é para até dois passageiros. O motor 100% elétrico tem autonomia de 100 km e atinge até 80 Km/h. A fabricação é feita em Valladolid, na Espanha.

Twizy Renault elétrico

Pesquisa pioneira

Está em Curitiba, dentro do Campus da Indústria, o primeiro centro tecnológico de veículos híbridos e elétricos do país. O Centro de Mobilidade Sustentável e Inteligente do Sistema Fiep agrega iniciativas de empresas, governo e universidades acelerando a modernização da cadeia automotiva e capacitando profissionais para atuação dentro do novo conceito de produção. O estado é um dos principais pólos da indústria voltada à produção de veículos de todos os portes.

De acordo com Rafael Cury, gerente do Campus da Indústria, o Centro disponibiliza infraestrutura completa para formar profissionais e conectar todas as frentes de atuação tecnológica e de inovação. Copel, Itaipu, Renault e Bosch estão entre as primeiras empresas a se engajarem na busca de soluções conjuntas. O segmento de veículos elétricos é promissor no Brasil e tem rápido crescimento mundial.  Eu fui conhecer o espaço e mostro no vídeo abaixo.

Os esforços em busca de soluções para o setor mobilizam pesquisadores de diversas áreas. Nas salas do Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica (ISI-EQ) estão em andamento estudos de prototipagem de baterias chumbo-ácido que atendem as novas exigências do mercado automotivo. Com mais tecnologia embarcada, os veículos precisam de sistema energético mais eficiente. Os testes estão sendo realizados em parceria com 11 fabricantes. O desenvolvimento do projeto tem insumos nacionais e aplicação de nanotecnologia que aumenta a competitividade.

A Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) divulgou recentemente pesquisa que conclui que um carro elétrico tem 40% a menos de manutenção e consegue rodar 300 quilômetros com R$ 40. Ainda assim o mecânico de carro elétrico é uma das novíssimas atividades que o desenvolvimento da eletricidade veicular cria. As montadoras estimam a abertura de pelo menos 25 mil vagas em dez anos para esses profissionais – que além de entender de conhecer o funcionamento do motor elétrico terão que saber sobre tecnologia embarcada e falar inglês. 

 

Aposta paranaense 

Carro elétrico eiON buggy

A paranaense eiON aposta no buggy elético. Na foto, Milton dos Santos Jr e a equipe durante palestra sobre o empreendimento em Curitiba. Foto Luiz Costa /SMCS.

O Buggy Power é a aposta da paranaense eiON, em Curitiba. Depois de dois anos de pesquisas e sem qualquer apoio externo, o engenheiro eletricista e advogado Milton Francisco do Santos Júnior, apresentou o veículo 100% elétrico. Para tirar o projeto do papel, ele contou com a parceria de amigos donos de uma pequena fábrica de bugues. Na montagem, a startup utiliza motor elétrico produzido pela WEG, de Jaraguá do Sul/SC, e baterias de íon-lítio de três empresas diferentes. 

Buggy power elétrico eiON amarelo

O Buggy Power está sendo oferecido ao mercado nas versões Básica, Padrão, Econômica e Luxo com autonomia para rodar entre 150 km e 500 km. Resorts, pousadas e locais voltados ao ecoturismo estão na mira dos empreendedores como clientes potenciais. Outra possibilidade é oferecer o veículo em forma de compartilhamento por meio de um aplicativo, como ocorre com patinetes e bicicletas. Dependendo do modelo, o preço e venda fica entre R$ 119 mil a R$ 239 mil.

 

Recomeço no Rio Grande do Sul

 

Liggo carro elétrico RS

A história começou entre 2012 e 2013 e foi retomada no final de 2018. Os criadores do Liggo, em Porto Alegre, voltaram a acreditar no projeto que tinha previsão de apresentar o protótipo de carro elétrico até o final de 2016. Não foi possível. Agora, com atmosfera mais favorável os empreendedores Émerson Gottardi, Giovanni Cataldi Neto e Sandro Lima voltaram a investir na viabilidade do Liggo. O engenheiro automotivo Émerson Gottardi, enfatiza que o Liggo foi concebido com chassi dinâmico, possibilitando adequação às diferentes necessidades de mercado, como utilitários ou veículos mais compactos. “Optamos por focar no protótipo 100% fabricável com todas as matrizes desenvolvidas para um modelo de produção em escala. Com chassi e motor elétrico montados, a meta é concluir o protótipo ainda em 2019”. Os criadores do projeto seguem estudando propostas para acelerar o protótipo e introduzir o Liggo no mercado. 

 

Fábrica em Santa Catarina

Li_5_crédito Ivor Braga

Santa Catarina também tem uma montadora de carro elétrico para chamar de sua! A Mobilis – Veículos Elétricos colocou no mercado o Li, primeiro lançamento da empresa que desde 2013 desenvolve um produto alinhado com os conceitos de mobilidade urbana inteligente. A bateria de íons de lítio inspirou o nome e da vida ao projeto que desde o início foi pensado para o mercado B2B. Dentro do Li o usuário vive experiências inéditas no mercado automotivo brasileiro. Entre as novidades estão a partida por login, o sistema de manutenção online conectado com a fábrica – que analisa o perfil do condutor e prevê problemas no sistema antes de acontecerem, o head up display com projeção de dados importantes do sistema, como o velocímetro e a carga da bateria, e o sistema de gestão de frota (TrackLi). Por causa do lítio, a vida útil das baterias é estimada em mais de 10 anos, três vezes maior que a dos veículos de mesmo porte produzidos nos Estados Unidos e na China. A autonomia é de 50 km por carga.

 

Li_6_Mobilis crédito Ivor Braga

Atualmente o modelo que está sendo vendido é para uso como veículo de vizinhança, em condomínios, indústrias, resorts. Mas a versão de rua do Li já está em processo de homologação. O Urban Li com portas, freios ABS e airbag deve circular pelas ruas brasileiras ainda este ano com preço estimado entre R$ 65 mil a  R$ 69 mil. A fábrica da Mobilis fica em Palhoça, região metropolitana de Florianópolis. São 15 pessoas na equipe, formada basicamente de engenheiros e gestores.

“Nós acreditamos em um modelo inovador de transporte e por isso confiamos no sucesso do Li. A partir dele, uma série de soluções voltadas para a mobilidade serão criadas para incentivar a mudança da cultural local, impulsionando a oferta e educando a população para um futuro em que os carros elétricos farão parte do cotidiano nas ruas”, acredita Paulo Bosquiero Zanetti, engenheiro elétrico e sócio da Mobilis.

Saiba um pouco mais dos planos da Mobilis com diretor comercial, Erico Reis.

Como nasceu a Mobilis?

A Mobilis nasceu do sonho de ter uma montadora de veículos 100% elétricos no Brasil com tecnologia (dentro das nossas realidades) o mais nacional possível. O pontapé inicial foi dado pelo o Mahatma (CEO da Mobilis), que iniciou com esboços de veículos. Posteriormente Paulo Bosquiero Zanetti e Thiago Hoeltgebaum (ambos engenheiros) se juntaram para consolidar o time de early founders junto ao administrador Marcos Dal Moro.

Quais soluções foram desenvolvidas aqui e quais tiveram que importar? 

Falando em número de peças 90% do veículo provém de uma base nacional de fornecedores. Os demais itens são importados. Possuímos um laboratório de protótipos em Florianópolis no complexo do aeroporto e nossa micro fábrica segue em Palhoça.

Como está a aceitação do Li no mercado? 

Foram entregues 6 veículos e possuímos outros 8 na fila de produção. Com a maior difusão da marca e das nossas capacidades produtivas, esperamos atingir este volume mensalmente em um período curto de tempo.

Quais os caminhos para o crescimento da empresa e criação de novos modelos? 

Buscamos nesse momento a aceleração da empresa para atender a crescente demanda de alternativas para mobilidade urbana,  e por isso estamos no momento de uma chamada a investidores. Nossa ideia é compartilhar esse propósito que gera mudança significativa para a mobilidade no país. Estamos abertos a mostrar nosso plano aos investidores interessados.

A empresa quer vender quantas unidades até o final do ano?

O plano inicial era algo próximo a 100 unidades, o que ainda é possível caso possamos acelerar os investimentos na área fabril e de desenvolvimento. A demanda no Brasil, de acordo a estudos de consultorias especializadas, é no médio prazo de 150 mil unidades ano. Acreditamos que, com o mix de produtos que possuímos e planejamos ter, poderemos suprir uma parte relevante desta demanda.

Nessa trajetória de desenvolvimento do veículo elétrico ainda há muito estranhamento no mercado?

É impressionante como o design da marca e do veículo denota que ele é elétrico. Por diversas vezes passamos em postos de gasolina e os frentistas nos indagam se ele é elétrico sem ao menos dizermos nada. Já nos perguntam qual a autonomia, velocidade etc. Estamos fazendo parte de algo ímpar na indústria brasileira, o que nos gera muito orgulho. Acreditamos que conseguimos colocar no mercado um produto que resolve problemas de mobilidade de forma simples e é um passo grande para um futuro de cidades inteligentes e conectadas. 

 

Outras novidades movidas a eletricidade

 

  • Helicóptero elétrico – A Bell fabrica helicópteros nos Estados Unidos e apresentou em 2018 a cabine do futuro helicóptero elétrico com acesso contínuo à internet, prevendo a integração do equipamento com soluções na Internet das Coisas. Não há previsão para lançamento ao público.
  • Aeronave elétrica made in Brazil – A Embraer e a WEG fecharam acordo de cooperação científica e tecnológica para desenvolvimento conjunto de novas tecnologias e soluções para viabilizar a propulsão elétrica em aeronaves. As tecnologias serão primeiro testadas em laboratório. Depois, uma plataforma aeronáutica vai ser usadas para integrar os sistemas complexos em condições de operação real.O primeiro voo do demonstrador movido a energia elétrica está previsto para 2020.
  • Carro elétrico autônomo sem volante – Lançamento da General Motors, a versão do Chevrolet Bolt (ou Chevy Bolt) não tem volante e nem pedais. Com a solução, a GM quer operar em serviços de táxis dos Estados Unidos já em 2019.
  • Ultra carregamento de bateria – A nova estação de carregamento SuperCharger V3 da Tesla já permite o carregamento total de baterias veiculares em apenas 15 minutos.
  • Personalização – Na Fiat a novidade é a personalização. Além de itens como para-choque e teto também é possível escolher a bateriado veículo, com autonomia entre 100 km até 500 km no novo Centoventi.

 

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