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Eficiência energética: o simples é a maior inovação

Trabalhador na fábrica da Volvo
Trabalhador na fábrica da Volvo

Fazer o mesmo, ou até mais, com menos! A definição de eficiência fica ainda mais clara quando exploramos os caminhos que levam à evolução produtiva na indústria. Em tempos de indústria 4.0, a quarta revolução industrial baseada na interação homem-máquina e no uso inteligente de dados, aproveitar com racionalidade os recursos básicos é muito mais que inovação. É desruptivo, só pra usar a nova palavra da moda no meio corporativo.

Empresa que não pode perder dinheiro já começou a fazer uma gestão energética criteriosa. Demanda para fechar as contas a cada mês, exigência do mercado com base nos acordos internacionais para redução da emissão dos gases geradores do efeito estufa, como dióxido de carbono, o maior responsável pelo aquecimento global.  Investir em eficiência energética é a forma mais eficaz, de acordo com estudos da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). Pelo menos 40% das reduções necessárias para limitar o aquecimento global a 2°C podem ser alcançadas com a mudança na escolha das fontes de geração e com medidas de economia no consumo.
Etiqueta Eficiência Energética

Uma medida recomendada pelo Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, assinado em 2015, é a rotulagem de produtos com dados de eficiência energética para estimular a consciência ecológica dos consumidores. Só para fabricantes de linha branca, como Eletrolux e Whirlpool, a indústria paranaense Vexilom produz por mês 50 mil etiquetas.

É na observação de rotinas e na integração escritório-chão de fábrica que a eficiência energética realmente acontece.

 

Medidas simples, como a análise da conta de energia elétrica e dos sistemas de tarifação revelam números surpreendentes. Assim como ninguém gosta de pagar pela espuma que deixou menos espaço pra bebida num copo de chopp, as concessionárias de energia não toleram investir em infraestrutura para entregar uma energia que não é consumida. A simplificação explica bem a multa de até 30%  que muitas empresas pagam na conta de luz, e nem sabem. É que desde 1992, há uma resolução da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), prevendo a cobrança de multa pela “Energia Reativa Excedente”, uma penalidade que com esse nome confunde mesmo o consumidor. O especialista em eficiência energética Paulo César dos Santos, fez o calculo: se a conta de energia for de R$ 30 mil, a multa pode representar R$ 9 mil, ou R$ 108 mil ao final de um ano. Pois é, o mau aproveitamento da energia  elétrica custa bem caro.
Conforme Fábio Amaral, diretor da Engerey Painéis Elétricos, em Curitiba, a maioria dos consumidores desconhece a cobrança e não sabe o que fazer para eliminá-la. É justamente neste nicho que a empresa atua, produzindo painéis elétricos e bancos de capacitores. O primeiro passo é fazer a medição no local. “Cada empresa tem uma necessidade diferente e configurações especificas”, enfatiza Fábio.

Fábio Amaral, diretor da Engerey Painéis Elétricos, em Curitiba

“O fator de potência (normalmente expresso em porcentagem) é a relação entre as três potências existentes: reativa, aparente e a ativa. A potência ativa é aquela consumida para a realização de um trabalho, a potência reativa não produz trabalho – mas é essencial para o funcionamento de máquinas elétricas como motores de indução – e circula entre um equipamento e a fonte de alimentação, ocupando um espaço no sistema elétrico que poderia ser utilizado para fornecer mais energia ativa. Um alto fator de potência indica eficiência do uso da energia (energia ativa e reativa estão em conformidade) e um fator de potência abaixo de 92% indica baixa eficiência energética (há desperdício de energia).”

Para indústrias de porte médio, a readequação pode custar entre R$ 7 mil e R$ 25 mil, dependente da natureza, características da linha de produção e da carga instalada. Segundo o empresário, o investimento se paga em até 13 meses só com a economia gerada na fatura de energia elétrica. “Fornos de indução e motores de alta potência geram o excedente reativo com maior ênfase”. A empresa dele produziu e vendeu, desde o começo do ano, mais de mil painéis elétricos que controlam as oscilações de potência dos equipamentos. “O correto dimensionamento através de um banco de capacitores elimina a energia reativa excedente e melhora a qualidade de energia da instalação elétrica”, finaliza Paulo César dos Santos.

A cobrança da Energia Reativa Excedente é a penalidade dada pelas concessionárias às empresas que possuem um baixo fator de potência, reflexo do mau aproveitamento da energia elétrica.
Montagem de cabines de caminhões na fábrica da Volvo

Levantamento de oportunidade para eficiência energética na Volvo ocorrem em dois momentos: um com a fábrica parada e outro com todas as linhas em operação.

Entender os sistemas de tarifação, ter um diagnóstico dos fatores de consumo inadequado de energia e encontrar soluções otimizadas são tarefas que ganharam o topo da agenda na indústria de alto rendimento. A gestão voltada para a sustentabilidade e o compromisso de respeito ao meio ambiente levaram a fábrica da Volvo, em Curitiba, a economizar 5,6 GWh/Ano de energia elétrica nos processos produtivos que incluem a fabricação de cabines e motores. “A economia financeira alcança R$ 1,6 milhão por ano”, revela Jorge Marquesini, vice-presidente industrial do Grupo Volvo América Latina. Em doze anos a empresa reduziu em 37% o consumo energético na unidade de Curitiba. Descobrir novas oportunidades para continuar economizando exige o olhar atento de todos. E é isso o que fazem os colaboradores no dia a dia. Eles participam de uma espécie de “caça ao tesouro” identificando desperdício e indicando ações de baixo ou nenhum custo para implementação.
Veja nos vídeos abaixo dois exemplos de eficiência energética a partir de medidas para reduzir o desperdício.
Nesta primeira gravação Marcos Pape, coordenador de manufatura, nos apresenta uma solução com alto poder de economia a partir do controle de consumo do ar comprimido – um dos vilões da conta de energia elétrica na indústria.
https://www.youtube.com/watch?v=-OfOkR4AYBc
Neste outro vídeo o coordenador de manufatura, Marcelo Bruel, explica como uma equipe de trabalhadores encontrou a solução que evita perdas de energia elétrica e de óleo hidráulico durante o abastecimento para teste de motores automotivos.
https://www.youtube.com/watch?v=AC0P51VIVkg
A iniciativa da equipe da Volvo no Brasil é ambiciosa. A empresa quer reduzir em 7,8 MWH/Ano o consumo de energia nas fábricas até 2020. A meta faz parte do compromisso global que o Grupo Volvo assumiu com a WWF (World Wild Foundation) para redução de 160 GWH/Ano no mesmo período. Outras medidas já foram adotadas, como o aproveitamento do calor gerado pelas máquinas de usinagem de motores para aquecer a água dos chuveiros nos vestiários, a instalação de inversores de frequência para desligamento automático de máquinas que não estão em uso e melhorias no sistema de iluminação – a substituição de lâmpadas de mercúrio por LED permite o desligamento em áreas e horários diferenciados sem perda de qualidade da iluminação ao religar.
Reportagem Gislene Bastos. Com a colaboração de Fabiana Genestra e Dionei Santos.
Veja a parte 2 desta reportagem: desafios à eficiência energética na indústria
Veja a parte 3 desta reportagem: oportunidades de eficiência energética na indústria
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