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10 coisas que sempre me perguntam sobre a Antártica

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Oie! Abrindo aqui no ESCOLHA VERDE uma nova conversa. A “coluna” é um espaço mais pessoal, com um pouco de bastidores das reportagens, comentários e análises sobre as questões que envolvem os temas que são a base do blog: sustentabilidade, inovação, destinos verdes. A ideia é trocar opiniões com quem passa por aqui. Então, não deixe de comentar, fazer também a sua análise. Combinado?
Bom, pra começar quero dividir com você um trabalho que foi realizado em 2014, mas está sempre muito presente. A Expedição Antártica acompanhou o dia a dia e o esforço dos militares da Marinha do Brasil no apoio aos pesquisadores brasileiros numa região remota, cujo equilíbrio é essencial para a manutenção da vida no Planeta – mas que sofre ano a ano com as alterações no clima provocadas pela humanidade.

Navio Ary Rongel ancorado na Baía do Almirantado, onde o Brasil realiza pesquisas científicas e fica a Estação Antártica Comandante Ferraz. Foto Gislene Bastos

Navio Ary Rongel ancorado na Baía do Almirantado, onde o Brasil realiza pesquisas científicas e local onde está sendo construída a nova Estação Antártica Comandante Ferraz. Foto Gislene Bastos.

Num dia de neve a bordo do H-44. Foto Daniel Vasconcelos, fuzileiro naval da Marinha do Brasil e que na viagem era o comandante da área de comunicação.

Num dia de neve, eu e Dionei Santos, a bordo do H-44. Foto Daniel Vasconcelos, fuzileiro naval da Marinha do Brasil e que na Expedição Antártica era o comandante da área de comunicação.

Pra chegar lá, eu e o repórter cinematográfico Dionei Santos fizemos primeiro um voo comercial de Curitiba a Punta Arenas, sul do Chile. Já na Patagônia Chilena embarcamos no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, o H-44, junto com outros jornalistas, cientistas, alpinistas, mergulhadores.  Quatro, das sete reportagens produzidas, foram reapresentadas no último mês de janeiro durante uma temporada de programas especiais da RIC TV, emissora afiliada Record TV aqui no Paraná e em Santa Catarina.
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No programa que teve como tema o Paraná na Antártica atualizamos as informações, mostramos imagens da construção da futura Estação Antártica Comandante Ferraz, na Baía do Almirantado, e conversamos ao vivo com profissionais envolvidos nas atividades por lá. Vamos rever juntos e matar a saudade? Bom, como talvez você acabe curioso e com dúvidas sobre a nossa estadia num lugar inóspito ao extremo, ou queira saber sobre a experiência de navegar num navio militar, deixo logo ali embaixo uma relação de perguntas/respostas sobre a expedição. Vamos juntos?

10 COISAS QUE SEMPRE ME PERGUNTAM SOBRE A ANTÁRTICA
1 – Como foi chegar à Antártica? Chegamos ao continente gelado com a luz dourada do final de tarde sobre as montanhas nevadas e uma revoada de petréis-do-cabo. Imagens que nos aqueceram na hora, apesar da temperatura de alguns graus negativos! Impossível não tirar a luva, congelar os dedos e garantir uma fotografia única, pessoal. O ar gelado cortava a pele, invadia as narinas. O silêncio parecia gritar. O olhar se perdia querendo guardar detalhes de uma vastidão que não cabia no ângulo das nossas vistas. Passado esse primeiro momento de deslumbramento e apreensão, eu fiz o que aprendi com a experiência. Esqueci as pessoas ao redor, puxei o ar bem fundo pra sentir mesmo a atmosfera congelante, abri e fechei os olhos várias vezes. Guardei imagens e sentimentos. Agradeci.

Amanhecer com neve. Foto Dionei Santos.

Amanhecer com neve. Foto Dionei Santos.

2 – Qual o ensinamento da Antártica? Na Antártica toda ação fica sujeita à natureza. É com base na avaliação das condições do tempo que as decisões são tomadas. Como estávamos no navio da Marinha do Brasil, a decisão cabia ao comandante, assessorado pelos dados fornecidos pelos militares das áreas técnicos de meteorologia e navegação. Em vários dias permanecemos em alerta durante horas sem conseguir desembarcar. Em outros, fomos pegos de surpresa por uma “janela” de trinta ou quarenta minutos para ir a terra, gravar e retornar com o bote até o navio. Na Antártica o planejamento é essencial para conseguir realizar qualquer atividade. Mas é a capacidade de adaptação que determina o sucesso da ação, o que significa voltar em segurança para o abrigo.

Andar na neve com roupas pesadas, carregando equipamentos, contra o vento e chuva fina,é das tarefas mais cansativas. Foto Dionei Santos.

Andar na neve com roupas pesadas, carregando equipamentos, contra o vento e chuva fina,é das tarefas mais cansativas. Foto Dionei Santos.

3 – O que vocês comiam no navio? A vida a bordo pode parecer extremamente maçante. Nos dias de viagem e naqueles em que permanecemos fundeados nas águas geladas precisamos nos adaptar aos horários regrados da vida militar. O dia começava sempre às 07h, com a Alvorada do Ary Rongel. Ainda na cama, ou já nos arrumando pra sair do camarote, ouvíamos informações como as condições do tempo, temperatura externa e tempo de sobrevivência de uma pessoa no mar. Ao longo do dia eram servidas quatro refeições: café da manhã às 07h15, almoço às 11h15, janta às 17h15 e ceia às 20h30. O cardápio era variado ao longo da semana e a cada refeição eram incluídos itens de diferentes grupos de alimentos: sempre uma proteína, um carboidrato, verduras, legumes, frutas. À medida que a navegação se prolongava, a oferta de alimentos frescos, como folhas verdes e frutas in natura, foi diminuindo. No lugar entraram compotas de frutas e saladas em conserva.
4 – Era fácil dormir? Deitar era um momento de provação diária. Os camarotes do NApoc Ary Rongel são pequenos e com capacidade para seis pessoas. São seis armários, seis gavetas para pequenos objetos, uma mesa com cadeira e dois triliches. Tudo grudadinho. O espaço entre a cama de baixo para a de cima, da de cima para a superior – e desta com o teto, é de apenas alguns centímetros. Assim que fomos apresentados aos triliches, passamos a imaginar como faríamos para “entrar” nas gavetas-cama. Logo descobrimos que, se não eram acomodações de luxo, eram confortáveis. Usando as próprias camas como escada e com um pouco de contorções no corpo tivemos noites reconfortantes. O segredo era colocar primeiro a cabeça, depois o tórax e o abdômen e, por último, as pernas… E já na sequência de lado certo para deitar. Não sei se era o cansaço das gravações do dia ou o balanço da água acariciando o navio, mas todas as noites depois que conseguia encostar o rosto no travesseiro o sono vinha rápido. Nada de insônia.

Apresento-lhes o "triliche marinheiro" Confortável, uma bênção aquecida na volta ao navio... e claustrofóbico! Foto Dionei Santos.

Apresento-lhes o “triliche marinheiro”. Confortável, uma bênção aquecida na volta ao navio… e muito claustrofóbico! Foto Dionei Santos.

5 – Enjoaram muito? O enjoo ou mareio é companheiro de quem se aventura algumas horas no mar. Difícil o navegante que não sinta os sintomas. Em viagens longas mais ainda. E muito pior pra quem se propõe a atravessar as águas entre o extremo sul das Américas e a Antártica. Esse trecho de mar, conhecido como a Passagem de Drake, é considerado um dos priores para a navegação no mundo com ventos constantes e ondas que podem chegar a 10m de altura. Nossa travessia foi amena, com ondas de até 5m… Nessas condições foram dois dias, 44 horas. Eu passei realmente mal… Nas palavras do pessoal do navio “fiquei verde”. Precisei trocar a medicação contra enjoo e reforçar os cuidados com a alimentação. Passei várias horas entre a cama e o sofá da Praça d’Armas, a sala de convivência na embarcação. Para o Dionei, o Drake foi mais tranquilo. Ele até conseguiu trabalhar e gravou imagens que trazem para o presente algumas horas, que pra mim, foram de total desamparo.
6 – Dentro do navio a água era racionada? O Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel é carinhosamente chamado pela tripulação como o Gigante Vermelho. Não é pra menos. Com autonomia para até um mês no mar, tem grande capacidade para transporte de carga e conta com soluções que trazem conforto pra vida confinada. O sistema que transforma água do mar em potável é um orgulho. Os tanques armazenam 112 mil litros de água. O abastecimento é garantido. Os banhos não tem limite de tempo, exceto pela consciência de cada um. E os tripulantes podem até mesmo lavar roupas.

Com os mascotes do Ary Rongel. Os bichinhos de pelúcia são presentes deixados pelos pesquisadores aos militares quando retornam pra casa. Foto Dionei Santos.

Com os mascotes do Ary Rongel. Os bichinhos de pelúcia são presentes deixados pelos pesquisadores aos militares quando retornam pra casa. Foto Dionei Santos.

7 – Chegaram a passar muito frio? Como se protegeram? Não passar frio na Antártica é impossível. O lugar mais gelado do planeta exige adaptação e vestuário especial para a sobrevivência humana. Recebemos nosso kit do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) durante a viagem, logo depois que saímos de Punta Arenas. Tínhamos feito reserva, com a especificação dos tamanhos, ainda no Brasil. A Marinha se encarrega de separar e fazer chegar até você todo o material: calça estilo jardineira, jaqueta com capuz, toca, cachecol, máscara para os olhos, luvas, botas. Só saíamos do navio se estivéssemos devidamente uniformizados… E ninguém jamais sequer pensou na possibilidade de eliminar alguma peça. O frio congelava até o pensamento. Literalmente.
8 – Como as pessoas vivem na Antártica? A Antártica não é uma terra própria para nós humanos. São poucos os animais que conseguem sobreviver às condições de tempo tão extremas. Características tão especiais que algumas espécies só sobrevivem lá mesmo. Caso que se repete com as plantas e outros organismos vivos. As pessoas que acabam morando na região, o fazem em situação especial. São pesquisadores ou militares dos países que integram o Tratado Antártico. Poucos países mantem bases permanentes durante todo o ano. Sobreviver ao inverno antártico é missão pra bem poucos. Alimentos, por exemplo, só chegam jogados de aviões que sobrevoam as estações, sem aterrissar.  O modelo mais eficiente de povoamento é desenvolvido pelo Chile. Os oficiais da Força Aérea podem levar esposas e filhos para viver no continente durante dois anos. Eles dão vida a Villa Las Estrellas, um modelo único de convivência social.

Nosso grupo de jornalistas com alunos e professores durante visita à escola da Villa Las Estrelas.

Nosso grupo de jornalistas com alunos e professores durante visita à escola da Villa Las Estrellas.

Paisagem antártica. Foto Dionei Santos.

Paisagem antártica. Foto Dionei Santos.

9 – O que de mais surpreendente você viu lá? Numa região como a Antártica pra todo lado que você olha, você se surpreende. Num dia uma pedra negra chama a atenção. Uma ou duas horas depois e essa pedra está coberta pela neve. A paisagem é de um cinza constante. Em duas semanas que permanecemos lá, foram só dois com algumas horas de sol. Ainda assim não é uma paisagem sem contraste… O olhar se adapta e reconhece variações de tom mesmo à distância.  Exceto nos locais próximos às pinguineiras, o ar não carrega cheiros fortes. É limpo mesmo. O vento é constante. Mas não o vemos nas folhas de uma árvore – simplesmente não há arvores! Nós o sentimos cortando a pele, queimando o rosto. E se ninguém fala ao seu lado, este é o lugar perfeito para conhecer o silêncio. Silêncio sem barulhos, sem ruídos.

Dionei Santos no alto de elevação com vista para a Baía do Almirantado numa tarde com chuva, neve, sol e trabalho. Foto Gislene Bastos.

Dionei Santos no alto de elevação com vista para a Baía do Almirantado numa tarde com chuva, neve, sol e gravações. Foto Gislene Bastos.

Eu, curtindo a espera para realizar um surpreendente sobrevoo antártico. Foto Dionei Santos.

Eu, curtindo a espera para realizar um surpreendente sobrevoo antártico. Foto Dionei Santos.

10- O que foi mais marcante nesta cobertura? Essa é quase sempre a primeira ou segunda pergunta. Deixei pra respondê-la por último, de propósito. É preciso saber as respostas anteriores pra entender porque não da pra escolher um momento ou imagem marcante. Posso facilmente escolher a imagem congelada da chegada, a mistura de adrenalina/medo/satisfação dentro dos botes entre o navio e a praia, a visão da neve, a camaradagem da convivência realmente humana num lugar tão desumano, o sobrevoo de helicóptero que nos deixou do ladinho de geleiras eternas e muito azuis… e a lista segue sem fim. Eu vou sempre lembrar dos dias em que conheci a vida na mais autêntica e gigantesca manifestação.

Últimos comentários
  • Muito fantástica essa aventura, sempre gelado, sons da natureza e o sol não se põe, só percorre em círculos!!!!