A cerimônia do Globo de Ouro 2026 ficará marcada na história da nossa cultura. Não apenas pelo glamour das estatuetas, mas pelo que elas representam. Pela primeira vez, um filme brasileiro conquistou dois prêmios em uma mesma edição, um feito inédito que reacende a conversa sobre a potência de uma arte que insiste em criar.
“O Agente Secreto”, o novo longa de Kléber Mendonça Filho, levou os prêmios de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator de Drama, consagrando a atuação visceral de Wagner Moura.
Esta vitória dupla vai muito além do tapete vermelho. Ela simboliza uma “volta por cima” da produção nacional e a persistência de profissionais que, mesmo diante de cenários adversos, continuaram a produzir.
Uma resposta à persistência
A vitória na categoria de filme estrangeiro coloca “O Agente Secreto” ao lado de gigantes como Orfeu Negro (1960) e Central do Brasil (1999). Contudo, o contexto atual traz um peso diferente.
Ao receber o prêmio, Kléber Mendonça Filho dedicou o momento ao futuro da indústria, conectando as novas gerações de cineastas à necessidade de expressão:
“Estou honrado de estar neste grupo de grandes diretores estrangeiros. Eu dedico este prêmio aos jovens diretores. Este é um momento muito importante para se fazer filmes, aqui nos Estados Unidos e no Brasil.”

O trauma, a memória e os valores
Já Wagner Moura, que fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a vencer como Melhor Ator em Filme de Drama, trouxe um discurso carregado de humanidade. Moura, que em 2016 bateu na trave com Narcos, agora colhe os frutos de uma carreira construída com densidade e coragem.
Suas palavras no palco resumiram o sentimento de muitos artistas que carregam a responsabilidade de narrar o Brasil:
“É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis.”
E finalizou, em bom português, conectando-se diretamente com o público de casa: “Viva o Brasil e a cultura brasileira”.
A arte de inventar o presente
O reconhecimento internacional de “O Agente Secreto” — que também concorreu a Melhor Filme de Drama, sendo superado apenas por Hamnet — é uma resposta silenciosa e elegante aos tempos de incerteza.
O gesto é maior que o prêmio. É sobre quem continua fazendo; e mesmo com poucos recursos cria não apenas o novo, mas o extraordinário. É sobre uma resistência que não precisa de discurso pronto, pois se manifesta na realização.
Enquanto o mundo celebra essas vitórias com estatuetas douradas, o Brasil celebra a capacidade teimosa de existir e de seguir dizendo: “Estamos aqui. E vamos continuar criando.”

Nas redes sociais, a comemoração da equipe do filme logo depois da premiação nos Estados Unidos, seguiu o tom da celebração, memória e legado.