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Empresas podem ganhar mais ao integrar lucro e cuidado com meio ambiente

Gislene Bastos entrevista Miguel Milano
Hoje temos estreia por aqui. Bons temas rendem boas conversas. Então, vamos de entrevistas mais aprofundadas e com a apresentação de ideias e exemplos práticos sempre que possível. Claro que inauguro esse modelo de post com um assunto dos mais apaixonantes pra mim. Quer descobrir? Vamos conversando nas linhas abaixo. E não deixe de comentar pra que essa conversa fique ainda melhor!
Miguel Milano presidente Instituto Life
Engenheiro florestal, ele costuma perguntar: “É realmente necessário desmatar tanto?” Mas a preocupação e as ações de Miguel Milano vão muito além dos pés de araucária e de outras espécies nativas que defende. Milano mora em Curitiba e divide o tempo entre atividades com fundos de investimentos voltados à redução da emissão de gases de efeito estufa em empresas brasileiras e nos Estados Unidos, com a consultoria especializada no Instituto Life, do qual é presidente, e onde desenvolve estratégias relacionadas à gestão ambiental de organizações e conservação da biodiversidade.
Eu conversei com ele sobre a necessidade de conciliar interesses econômicos e ambientais. Algo muito claro para quem trabalha na área de desenvolvimento sustentável, mas que muita gente ainda costuma ver como excludentes. O consultor considera alarmante o baixo nível de discussão em torno da preservação ecológica no país. Meu convite é para seguirmos na direção oposta. Vamos conversar sobre isso?
Qual é o grande desafio hoje quando falamos em responsabilidade empresarial ambiental?
Conectar biodiversidade e mudanças climáticas é o ponto especial daqui por diante, porque você tem mudança climática afetando todos, e em todos os lugares, possivelmente com eventos extremos. A mudança é consistente e não está tendo volta. No mundo científico ninguém mais acredita que consegue conter em 2 graus centígrados a elevação da temperatura global. A possibilidade já é de até 4 graus. E isso seria trágico. Na história do planeta quando atingimos tal elevação vivemos o período em que mais se perdeu biodiversidade. Então é preciso fazer essa conexão. E isso tem muito a ver com proteção de áreas naturais que estocam carbono, que minimizam tudo isso, que protegem a água e tudo mais. Essa conexão é fundamental.
Por que desmatar é tão preocupante? Qual o grande dano ao cortar árvores e reduzir áreas de floresta?
Um dos fatores enormes de emissão de gases de efeito estufa é o desmatamento, a degradação do meio ambiente. Quando você desmata, degrada ou queima você tem emissão de carbono. Por outro lado quando você tem conservação de floresta e você tem florestas em regeneração você tem o quê? Você tem uma sucção desse carbono, um sequestro e um estoque do carbono. Essa é a conexão: florestas e ambientes naturais capturam carbono por um lado. E por outro, se não são degradados não emitem carbono. Então, tecnicamente falando, o caminho mais curto para você conter mudanças climáticas é primeiro salvar o que há de florestas e ambientes naturais; e segundo, é expandir essas áreas em regeneração através do incremento delas. Com isso seria possível talvez conter nos dois graus no médio prazo o aquecimento global.
“…o caminho mais curto para você conter mudanças climáticas é primeiro salvar o que há de florestas e ambientes naturais; e segundo, é expandir essas áreas em regeneração através do incremento delas.”
E as florestas também são importantes para a manutenção da biodiversidade…
Sim. Quando eu falo de floresta eu estou falando de biodiversidade. As pessoas às vezes pensam que a biodiversidade é o mico leãozinho bonitinho, a arara azul… Sim, isso é biodiversidade. Mas se não tiver casa não tem biodiversidade. E a casa deles é a floresta, é o pantanal ou outro ambiente. Precisamos todos ter esses entendimento do ponto de vista prático. Quando eu compenso carbono, quando compro crédito de carbono do que antigamente seria um lixão e virou um aterro sanitário controlado, o que é fundamental, eu dou um tipo de contribuição sim para reduzir a mudança climática. Mas, se uma empresa faz isso através de um projeto de REDD, por exemplo, que é a redução de emissão por desmatamento e degradação, ela não só está contribuindo para a redução dessa mudança, como está fazendo uma ação direta de conservação da biodiversidade, que é um elemento chave nesse processo.
Miguel Milano e Gislene Bastos
Manter o tripé econômico, social e ambiental em equilíbrio então é decisivo para consolidar um negócio sustentável?
Não há sustentabilidade nas empresas se você estiver com os pés só no social e no econômico. Até porque parte deles cria mais problemas querendo ou não, né. E o ambiente vai ter que suportar todas as atividades e consequências com oxigênio, com água, com clima estável. Então, temos que ter esse viés de sustentabilidade com forte ênfase em meio ambiente pra garantir a sustentabilidade econômica, o equilíbrio social e a própria sobrevivência.
O peso das atividades na indústria varia muito?
Diferentes empresas, em diferentes setores, tem diferentes comportamento. Alguns setores são muito corporativos e seguram esse processo. Outros, dão passos adiante como setores inteiros e começam a se ajustar. Algumas empresas também. Eu pego por exemplo o setor de alumínio. É um tipo de produto super importante mas que tem na sua origem problemas na mineração e um uso super intensivo de energia para sua produção obtenção. Só que o alumínio é cem por cento reciclável, eternamente reciclável, sem perder as suas propriedades químicas e físicas. A estimativa hoje é que 85% do alumínio circulante no planeta seja reciclado, ou seja, 85% por cento de todo o alumínio produzido até hoje continua circulando, está em uso. Eu brinco que é menos aquelas latinhas que o pescador jogou no rio, lamentavelmente. Quando você chega na segunda geração da reciclagem você está com um alumínio que custa 50% da energia inicial dele. Se reciclo mais uma vez, cai para 25% da energia gasta inicialmente. Conforme aumento a vida do alumínio com a reciclagem eu vou reduzir a pegada de emissões energéticas naquele alumínio tremendamente. Isso é crescente na indústria. Tem empresa saindo da relação da matéria prima de 80% primário-20% reciclado para o inverso em dez anos. Outras empresas tem outras abordagens.
“…o alumínio é cem por cento reciclável, eternamente reciclável, sem perder as suas propriedades químicas e físicas. A estimativa hoje é que 85% do alumínio circulante no planeta seja reciclado, ou seja, 85% por cento de todo o alumínio produzido até hoje continua circulando, está em uso.”
Para uma empresa cumprir as metas de sustentabilidade é preciso revisar as práticas a cada lançamento de um novo produto?
Talvez essa seja a primeira abordagem essencial do ponto de vista produtivo, a análise do ciclo de vida do produto. Se eu começo a criar um produto e ao mesmo tempo eu já  estou fazendo a análise de ciclo de vida, conforme eu encaixo “cada peça, cada parafuso ou cada embalagem”, eu vejo como foi produzido aquele componente e qual é a destinação final dele. Aí, eu passo a ter uma equação de quais são os cuidados como empresa que eu tenho que ter. Uma padaria, por exemplo, precisa comprar trigo de um lugar com origem conhecida. E seja na padaria, na indústria de cosméticos ou numa mineração de argila, é possível ter certificações que atestam algumas especificações desses componentes. Daí há uma série de certificações no processo industrial. Algumas delas são mais integrais.
É o caso da certificação Life?
Isso. O Instituto Life criou uma certificação de negócios e biodiversidade, que é uma melhor métrica conhecida hoje de sustentabilidade, porque avalia a pegada de carbono, os resíduos gerados, a área ocupada, as emissões atmosféricas, e oferece a pegada do que a empresa produz ou oferece de serviço. Depois, ainda avalia o que essa empresa precisa fazer para reduzir, ou para compensar o que não é possível reduzir em termos de pegada. E as ações podem ser efetivadas aliando a conservação de biodiversidade e a redução de carbono ou sua mitigação. E isso é economicamente bom! Em geral isso da lucro. Basta ver os resultados das empresas que já encaram isso com seriedade. Eu falo da Novelis, que reponde por vinte por cento d alumínio laminado produzido no planeta, e está crescendo. O Grupo Boticário, paranaense, outra empresa que está crescendo sistematicamente com base em ações de sustentabilidade. O Grupo Posigraf também aqui em Curitiba vai no mesmo caminho. Essas são empresas que tem a pegada da sustentabilidade ambiental, mas também olham para o campo econômico, porque da lucro! E fazendo as duas coisas elas geram emprego, geram impostos e fazem uma série de outras coisas boas. O importante é não usar as coisas boas que qualquer empreendimento pode produzir com impostos e emprego para acobertar a parte que não faz na área ambiental. Se não, a casinha desmonta.
“…em todas as contas, o que se vê é que no curto ou médio prazo o investimento se paga.”
Tem que integrar econômico e ambiental. Quanto precisa investir e em qual tempo vem o resultado?
Eu desconheço uma métrica segura nesse sentido. Ela varia de setor a setor dependendo do tipo de impacto e da consistência que o empreendimento tem. Num banco eu vou avaliar a quantidade de água e energia que consome, cada vez tem menos papel pois se faz tudo eletronicamente, transporte e algo assim. Parece que a pegada pode ser relativamente pequena… Agora, e o financiamento que esse banco oferece para alguém que vai desmatar 10 mil hectares na Amazônia ou que vai ter uma indústria ou hidrelétrica a carvão poluente e sem os filtros necessários? Qual é a responsabilização dele? Então vamos ter que avaliar o impacto direto, mas também precisamos ver onde, na cadeia pra frente e pra trás, o produto ou serviço gera impactos indiretos e o investimento poderá ser diferente. O investimento financeiro para resolver o problema vai depender do tamanho da análise feita pra frente e para trás. Mas tem banco começando a fazer isso! Se eu vou pra uma indústria madeireira, ou de papel e celulose, os impactos com água, com território e no processo de produção pode ser bem maior. E os custos são diferentes. Mas em todas as contas, o que se vê é que no curto ou médio prazo o investimento se paga. Em cinco anos um sistema integral de reaproveitamento com tratamento da água já pagou a conta com a redução na fatura de consumo desde o primeiro mês. A mesma coisa é com a energia. Com uma construção inteligente, com mais iluminação natural e com um sistema fotovoltaico de geração complementar, o benefício econômico é muito rápido. É preciso ver como investimento, não custo.

A grande empresa deve ser mais responsável?

Elas precisam ser mais responsáveis. Se realmente são, depende de cada análise. Empresas grandes e as líderes em seus setores tem a função de puxar o cordão para as coisas acontecerem. A Unilever compra sozinha 1% do soja comercializado do planeta. Isso é um impacto tremendo numa linha de mercado. E quando eles assumem o compromisso e obrigam certificação para só comprar soja de áreas em que não tem desmatamento ilegal, eles provocam um impacto pra trás gigante. Eles pagam um prêmio para o produtor, o soja que eles compram pode ser mais caro. Mas eles tem o compromisso de que não contribuir para o desmatamento e consequentemente, neste ponto, eles também contribuem para conter o aquecimento global. E se eles podem fazer, outras empresas também podem. Isso é inspiração. Eles também impõem uma linha de comportamento muito mais ético nesse mercado.

Quando não se trabalha num modelo sustentável a gente já sabe que a conta chega!
Primeiro o planeta cobra da sociedade. Porque o planeta vai seguir. Mas nós, como civilização, não sabemos qual vai ser nosso futuro. E a gente teve várias civilizações importantes que desapareceram. Os maias, os astecas sucumbiram muito antes da chegada do homem branco. As ruínas de pueblos nos Estados Unidos estão lá e certamente tiveram civilizações fantásticas. Boa parte do Oriente Médio é hoje um exemplo de sobre utilização dos recursos naturais e de um fim trágico. Só que hoje a situação é muito maior, não mais localizada mas planetária! Não tenho dúvida que o planeta cobra da sociedade. A sociedade tem que cobrar das empresas e do próprio indivíduo. Você tem que fazer a sua parte na empresa e em casa também. Economia de água, de energia, cuidado com o lixo e assim por diante. Se cada um não fizer a sua parte vai ser complicado.

 

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